Sunday, June 25, 2006

cidade, lugar do possível

"Conforme as belas análises de Walter Benjamin, se o homem habita uma cidade real, ele é, ao mesmo tempo, habitado por uma cidade de sonho. A realidade onírica remete aqui ao sonho coletivo, ao sonho do coletivo, ao desejo do corpo coletivo, suas utopias e esperanças abortadas, as miragens e fantasmagorias que o assediam. Os trajetos reais dos personagens na cidade remetem aos trajetos do sonho coletivo, como se houvesse duas cidades superpostas, uma real, outra imaginária, e a apologia de um trânsito metódico entre elas."

:: Peter Pál Pelbart em “A vertigem por um fio – Políticas da Subjetividade Contemporânea"

foto: nelson kon

Friday, June 23, 2006

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"Sonho o poema de arquitetura ideal / Cuja própria nata de cimento / Encaixa palavra por palavra, tornei-me perito em extrair / Faíscas das britas e leite das pedras. / Acordo; / E o poema todo se esfarrapa, fiapo por fiapo. / Acordo; / O prédio, pedra e cal, esvoaça / Como um leve papel solto à mercê do vento e evola-se, / Cinza de um corpo esvaído de qualquer sentido / Acordo, e o poema-miragem se desfaz / Desconstruído como se nunca houvera sido. / Acordo! os olhos chumbados pelo mingau das almas / E os ouvidos moucos, Assim é que saio dos sucessivos sonos: Vão-se os anéis de fumo de ópio / E ficam-me os dedos estarrecidos. / Metonímias, aliterações, metáforas, oxímoros / Sumidos no sorvedouro. / Não deve adiantar grande coisa permanecer à espreita / No topo fantasma da torre de vigia / Nem a simulação de se afundar no sono. / Nem dormir deveras. / Pois a questão-chave é: / Sob que máscara retornará o recalcado?"

A Fábrica do Poema
composição: Adriana Calcanhotto / Valy Salomão

foto: sesc pompéia, sp

Sunday, June 04, 2006

sobre o espaço

"Só ao se tornar ‘para mim’ o espaço recebe um significado, um sentido. O espaço ‘para mim’ ao contrário do espaço em si, só existe porque estou aqui. Nós não dependemos dele; ele é quem depende de nós, e sem nós nada seria.

O sentido do espaço só existe a partir da experiência do ‘eu’; portanto, o sentido do espaço da arquitetura não está no interior da abstração do espaço, no interior da arquitetura, na relação utilitária entre o cheio e o vazio, e tampouco nas entranhas das paredes. Qualquer sentido que se possa atribuir está fora dele, muito além de sua superfície. Está no interior de quem o vivencia, está nas pessoas que nele se deslocam constantemente. Curiosamente transportamos o sentido do espaço para qualquer lugar que formos.

O espaço não é, como crê a maioria dos arquitetos, uma realidade rígida e válida para todos. Ele em si é tão plástico e imaterial como o próprio tempo, variando com os indivíduos, com os povos, com as épocas, e, principalmente, com os pontos de vistas. Não existe um espaço objetivo e autônomo do ser humano. Existem diferentes maneiras de perceber e compreender esse espaço ‘bruto’, lá fora, sem significação, a espera de minha chegada. Por exemplo, desse mesmo espaço podemos produzir as mais diversas representações, como a do pintor, do arquiteto, do fotógrafo, do engenheiro, do médico etc. Mas certamente, a somatória deles nunca retratará a experiência de cada um, apenas ampliará seus sentidos, mostrando a existência de diversos pontos de vista."

Fernando Freitas Fuão
, em O sentido do espaço. Em que sentido, em que sentido? – 1ª parte (1)


na íntegra, aqui.