Monday, July 17, 2006

olhar a cidade

"Quem habita a cidade se habitua aos signos através dos quais circula e deambula. Ás vezes é necessário um olhar de fora, um olhar estrangeiro, que se depara com o estranho da diferença e faz aparecer aquilo que sempre esteve à nossa volta. O olhar que descobre a cada instante a cidade, a funda de novo. O habitante não é um contemplador do seu constante devir, pois, habitar uma cidade implica em ser chamado a decifrar, aprender a ler, interpretar, sendo convocado a colocar a parte de seu desejo. "

:: Jorge Jáuregui e Eduardo Vidal. "Não menos que três, do urbano contemporâneo".

a cidade subjetiva

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"É esse plano que seria possível evocar para falar de um aspecto da cidade que se poderia chamar de virtual. Insisto, não se trata de uma cidade imaginária, nem da cidade dos sonhos soterrados, nem da cidade ideal, nem da cidade mental – está mais próximo daquilo que Félix Guattari chamou de Cidade Subjetiva. Subjetivo não significa, para esse autor, interior – eu diria, quase, que é esta uma das grandes contribuições trazidas pelo seu pensamento, a de colocar a subjetividade sob o signo da exterioridade. Ora, não há coisa mais exterior do que a cidade. Mil Platôs chega a sugerir que a cidade é a exterioridade por excelência, ou a forma da exterioridade. Daí porque pensar a cidade e a subjetividade deveria ser uma e mesma coisa, desde que ambas fossem remetidas à dimensão de exterioridade que lhes é comum. A pergunta que se impõe no rastro dessas observações é: o quanto a cidade preserva ainda seu caráter de exterioridade, o quanto ela comporta de virtualidade, o quanto ela constitui ainda um meio a ser explorado, o quanto ela se presta, todavia a novos trajetos, a novos traçados de vida?"

:: Peter Pál Pelbart em “A vertigem por um fio – Políticas da Subjetividade Contemporânea"

Sunday, July 16, 2006

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"Em conversações sobre "Ulisses", James Joyce imagina que se porventura um dia Dublin desaparecesse, a cidade poderia ser reconstruída através da leitura de sua obra.

Sigmund Freud encontrava nas estratificações de Roma um trabalho equivalente ao do inconsciente onde elementos arquitetônicos de diferentes épocas e significações históricas convivem lado a lado em turbilhão, a despeito da coerência, provocando novas relações de sentido. Assim, a "Cidade Eterna" metaforiza o que há de indestrutível no desejo do homem que habita no inconsciente. As cidades podem ser vistas, então, como redes de escritura sustentadas no puro traço presente nos projetos e traçados, muralhas e monumentos e, também, nos escritos, nas legendas e graffites. A modo de palimpsesto se entrelaçam camadas de escrituras e séries de letras que permanecem longo tempo "esquecidas" à espera do leitor, em latência. E, da leitura surge a dimensão da interpretação dos rasgos, superposições, dobras, como uma tarefa específica relativa ao "resto" constituído pela acumulação urbana considerada como herança de fragmentos de várias urbanidades sobrepostas."

Jorge Jáuregui e Eduardo Vidal. "Não menos que três, do urbano contemporâneo".

Sunday, July 09, 2006

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"Cidade escrita que preserva e oferece ao leitor traços e letras gravados no "concreto". Cidade escrita, enquanto ela é a própria escritura da linguagem, numa materialização do espaço - temporal em permanente estado de turbilhão."

:: Jorge Jáuregui e Eduardo Vidal. "Não menos que três, do urbano contemporâneo".



fotos: são paulo, por nelson kon

Saturday, July 08, 2006

a cidade como escrita

"É evidente o paralelismo que existe entre a possibilidade de empilhar tijolos, definindo formas geométricas, e agrupar letras, formando palavras para representar sons e idéias. Deste modo, construir cidades significa também uma forma de escrita."


:: raquel rolnik em "o que é a cidade" (p.15)


foto: mostra concebida por Bia Lessa sobre a obra "Grande sertão: veredas", de Guimarães Rosa. Museu da Língua Portuguesa.