Sunday, July 16, 2006

...

"Em conversações sobre "Ulisses", James Joyce imagina que se porventura um dia Dublin desaparecesse, a cidade poderia ser reconstruída através da leitura de sua obra.

Sigmund Freud encontrava nas estratificações de Roma um trabalho equivalente ao do inconsciente onde elementos arquitetônicos de diferentes épocas e significações históricas convivem lado a lado em turbilhão, a despeito da coerência, provocando novas relações de sentido. Assim, a "Cidade Eterna" metaforiza o que há de indestrutível no desejo do homem que habita no inconsciente. As cidades podem ser vistas, então, como redes de escritura sustentadas no puro traço presente nos projetos e traçados, muralhas e monumentos e, também, nos escritos, nas legendas e graffites. A modo de palimpsesto se entrelaçam camadas de escrituras e séries de letras que permanecem longo tempo "esquecidas" à espera do leitor, em latência. E, da leitura surge a dimensão da interpretação dos rasgos, superposições, dobras, como uma tarefa específica relativa ao "resto" constituído pela acumulação urbana considerada como herança de fragmentos de várias urbanidades sobrepostas."

Jorge Jáuregui e Eduardo Vidal. "Não menos que três, do urbano contemporâneo".

Sunday, July 09, 2006

...

"Cidade escrita que preserva e oferece ao leitor traços e letras gravados no "concreto". Cidade escrita, enquanto ela é a própria escritura da linguagem, numa materialização do espaço - temporal em permanente estado de turbilhão."

:: Jorge Jáuregui e Eduardo Vidal. "Não menos que três, do urbano contemporâneo".



fotos: são paulo, por nelson kon

Saturday, July 08, 2006

a cidade como escrita

"É evidente o paralelismo que existe entre a possibilidade de empilhar tijolos, definindo formas geométricas, e agrupar letras, formando palavras para representar sons e idéias. Deste modo, construir cidades significa também uma forma de escrita."


:: raquel rolnik em "o que é a cidade" (p.15)


foto: mostra concebida por Bia Lessa sobre a obra "Grande sertão: veredas", de Guimarães Rosa. Museu da Língua Portuguesa.

Sunday, June 25, 2006

cidade, lugar do possível

"Conforme as belas análises de Walter Benjamin, se o homem habita uma cidade real, ele é, ao mesmo tempo, habitado por uma cidade de sonho. A realidade onírica remete aqui ao sonho coletivo, ao sonho do coletivo, ao desejo do corpo coletivo, suas utopias e esperanças abortadas, as miragens e fantasmagorias que o assediam. Os trajetos reais dos personagens na cidade remetem aos trajetos do sonho coletivo, como se houvesse duas cidades superpostas, uma real, outra imaginária, e a apologia de um trânsito metódico entre elas."

:: Peter Pál Pelbart em “A vertigem por um fio – Políticas da Subjetividade Contemporânea"

foto: nelson kon

Friday, June 23, 2006

...

"Sonho o poema de arquitetura ideal / Cuja própria nata de cimento / Encaixa palavra por palavra, tornei-me perito em extrair / Faíscas das britas e leite das pedras. / Acordo; / E o poema todo se esfarrapa, fiapo por fiapo. / Acordo; / O prédio, pedra e cal, esvoaça / Como um leve papel solto à mercê do vento e evola-se, / Cinza de um corpo esvaído de qualquer sentido / Acordo, e o poema-miragem se desfaz / Desconstruído como se nunca houvera sido. / Acordo! os olhos chumbados pelo mingau das almas / E os ouvidos moucos, Assim é que saio dos sucessivos sonos: Vão-se os anéis de fumo de ópio / E ficam-me os dedos estarrecidos. / Metonímias, aliterações, metáforas, oxímoros / Sumidos no sorvedouro. / Não deve adiantar grande coisa permanecer à espreita / No topo fantasma da torre de vigia / Nem a simulação de se afundar no sono. / Nem dormir deveras. / Pois a questão-chave é: / Sob que máscara retornará o recalcado?"

A Fábrica do Poema
composição: Adriana Calcanhotto / Valy Salomão

foto: sesc pompéia, sp